quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Sê tu a palavra

1.
Sê tu a palavra,
branca rosa brava.

2.
Só o desejo é matinal.

3.
Poupar o coração
é permitir à morte
coroar-se de alegria.

4.
Morre
de ter ousado
na água amar o fogo.

5.
Beber-te a sede e partir
- eu sou de tão longe.

6.
Da chama à espada
o caminho é solitário.

7.
Que me quereis,
se me não dais
o que é tão meu?

[Eugênio de Andrade].

domingo, 7 de fevereiro de 2010

no calcanhar dos minutos, na sombra do pôr do sol, na sobra de mim


pensei em você era quase três da manhã quando pensei em você não isso não é verdade era dia claro quando pensei em você estendi as mãos em volta ainda com os olhos fechados tateando às escuras não havia nada ninguém fui comprar jornal sei que gostas de ler notícias pela manhã comprei pão também e leite passei um café forte abri as janelas para que o ar do novo dia nos saudasse doce brisa e me coloquei à porta do quarto feito um gato ansioso à espera do dono era quase meio dia quando pensei novamente em você sei porque me deu aquela tontura destes dias quentes ai as geleiras ai a camada de ozônio ai onde é que isso tudo vai parar meu deus sei que você me entende sei que ri também e não sei se devido à tontura mais uma vez subindo os dezessete andares fui atravessado pelo rastro imperdoável do teu perfume e pensei em você nada nada pensei em você no meio da tarde quando desejei louco uma rede faixa de mar infinito água de beber balançaríamos os dois príncipes bundos brancas pombas a vadiar na areia e eu sei que você me pediria qualquer coisa no violão quem sabe um samba antigo e passarímos a vida assim no centro do universo você deitaria no meu ombro ou eu no seu tanto faz e sentiríamos que tudo aquilo valia a pena sim e então foi me dando uma saudade inconsolável um desespero torto de quem desaprendeu como se pede algo à alguém aguardava respostas no fim da tarde quando os automóveis buzinavam e as filas não andavam e os ônibus lotados não me deixavam outra alternativa a não ser continuar pensando em você afinal era início de tarde e quem sabe uma very-happy-hour-baby quem sabe um sorvete suco de abacaxi com a hortelã que eu plantei no quintal quem sabe tudo em qualquer esquina casual quando nos olharíamos aliviados e nos abraçaríamos e caminharíamos contando de nossos dias nossas vontades nossas fomes estaríamos famintos os dois e sairíamos sem presssa ilesos ao caos lá de fora o universo suspenso para que pudéssemos nos escutar sem gritos entrelaçados e quase fim do dia tantos filmes tantos shows tanta vida buscaríamos bares simpáticos e aconchegantes ou arrumaríamos as malas e nos mandaríamos para Luanda pois à noite me invadem os dragões vorazes as pulsões e já era quase nove dez onze da noite quando pensei em você estava exausto liguei o rádio e "I know that's the way" fui apagando uma sede vezenquando me dá uma sede secular de eram quase três da manhã você sabe e pensei pensei pensei pensei pensei pensei pensei pensei pensei pensei pensei pensei com afeto em você.
[Foto: Chander, Brisa].

sábado, 6 de fevereiro de 2010

"E, mais uma vez, subi os dezessete andares atravessado pelo rastro imperdoável do teu perfume."
"Para mi corazón basta tu pecho, para tu libertad bastan mis alas."

domingo, 31 de janeiro de 2010

"Que você me sentisse um pouco distante e tivesse pressa em me chamar outra vez para perto."

domingo, 24 de janeiro de 2010

"E esta ânsia de viver, que nada acalma,
E a chama da tua alma a esbrasear
As apagadas cinzas da minha alma!"



Então sentou-se na sala vazia. Os pensamentos tombavam seu tronco para trás e persistiam-lhe
aquelas idéias de perdas, desencontros, evolução. Era como uma incapacidade de alçançar
o umbral da vida ou o precipício. Cego estava e, sem tato, varava por parques inabitados a procura de. Que falava demais, gesticulando, dramática atriz. Que brindava a vida, que contava histórias, que lançava-se no sem volta a me perturbar. Em cada partícula de tempo se despedindo e voltando sem saber.

Contava dos mundos, fumava, sorrindo tossia. Das poltronas, das lojas, das latas enormes de
chá, da pulverização tecnológica em massa, da polidez dos costumes, da maternidade, da marginalidade, da fórmula matemática, da transcendencia, do bairro gay, do confinamento, do congelamento, das suas entranhas, estátuas, pústulas, fatias de bolo, fatais becos sem saída. Em cada moldura sua uma parte minha se apagava. E não entendia porquê. Fui me perdendo aos poucos. Quadro a quadro. E ela voltava a me encontrar.

Porque eu só tinha silêncios e ouvia seus gritos. Tive vontade de. Ela dançava na minha frente. Não sei se me convidava. Alguma coisa me estancava ali,prostrado, imobilizado, fragil e atento. Recebendo seu alimento bruto através de um tubo diretamente ligado ao meu segundo chakra, ou terceiro, não sei bem. Aquele que se relaciona com as suas experiências passadas, com o seu vir a ser. Meu ponto de partida, marco zero. Eu me lambuzava em seu líquido jocoso porque tinha sede. Fechava os olhos, passeava por todos os lugares, me perdia, me perdia, me perdia. E ela me achava. Nos meu porões, abismos, calabouços. Chovia.

Me angustiava. Porque eu queria mais. Precisamente não saberia dizer o quê. Mas admirava
aquela instalação multi-dimensional onde ela habitava. Qual seria a senha? A tal palavra
mágica. Como pertencer a esse lugar inexistente e ao mesmo tempo tão próximo de mim? Era
como se eu tivesse vivido até então como quem olha o mundo através de uma janela com grades
de um apartamento dos fundos. Palavras não descreviam a alegria até então desconhecida
surgida de um (re) encontro. Então chorei pela falta silenciosamente. Molhado por dentro sem
vestígios de lamento nem dor. Não sentia mais nada. Repousava triste, em silêncio. Não sei se comigo foi sempre assim. Mas naquele sábado, naquela noite, eu tinha muito o que lhe contar.

sábado, 16 de janeiro de 2010

"Fragilidade, teu nome é mulher."